Malick, Deus e a “Árvore da Vida”

Malick, Deus e a “Árvore da Vida”

Por Márcio Carlomagno

CANNES – O vencedor da Palma de Ouro em Cannes no último domingo, dia 22, “The Tree of Life” (A Árvore da Vida), traz uma nova e verdadeira obra de arte do diretor Terrence Malick.

O filme começa com os personagens principais, interpretados por Brad Pitt e Jessica Charstain recebendo a notícia da morte de seu filho. A partir disso, o filme se enreda nos lamentos sobre a morte e a vida e então surgem as lembranças da vida do jovem.

Os personagens dialogam com Deus, que se manifesta na belíssima fotografia de Emmanuel Lubezki. Os diálogos com o divino não são bem um “questionamento da fé”, como apontam algumas sinopses do filme, mas um diálogo, um lamento de luto, em busca de um entendimento sobre a vida e a morte. E nisso, a narrativa entra nessa tentativa de compreendimento.

Assim como Stanley Kubrick não temeu alongar seu “2001: uma odisseia no espaço” com longas sequências do espaço vazio, Malick não teme mergulhar em longas sequências do espaço e da criação do mundo. Imagens deslumbrantes do sol ardendo e de planetas em luz e sombra que provavelmente seriam impossíveis fisicamente, mas que deslumbram os olhos na bela composição de fotografia. Talvez a melhor representação que o cinema já concebeu de Deus e da criação. O mergulho de Malick nesses tempos primórdios dá direito à aparição até de dinossauros na tela, em sequência que, por estranho que se pareça dizer isso, não é estranha, mas coerente com o filme.

Se equivocará quem esperar por uma narrativa tradicional, uma storyline que possa ser resumida com começo, meio e fim. Não há isso. Embora se possa inferir um começo, meio e fim, não há uma progressão com um propósito. O filme poderia ser um recorte de um diário pessoal; e é isso que ele nos traz. Fragmentos da história de uma vida.

A câmera de Malick está em consonância com a perspectiva de “fragmentos de um diário”. Usando o recurso de “câmera na mão”, deixando os planos fixos de lado, os nossos olhos aproximam-se e retornam dos personagens, movem-se para os lados, tal qual nossa visão. O tom intimista predomina e é esse o intuito que bem-sucedidamente Malick alcança: nos fazer sentir parte da família, parte daquele mundo.

A evolução do personagem de Brad Pitt na pele de um pai duro, que quer fazer de seus filhos homens melhores do que ele próprio e com isso ultrapassa os limites, é visível na tela. Nota-se a mudança sutíl do personagem, nem sempre um homem duro. Conforme o passar dos anos, as relações entre pai e filho vão se estilhaçando. A delicada construção merece aplausos, tanto para a direcção de Malick quanto à atuação de Pitt. Também Jessica Charstain está excelente como a mãe submissa ao esposo.

O diretor Terrence Malick é famoso por sua arte e pelos longos intervalos entre a produção de um filme e outro – o maior desses intervalos foi de 20 anos, entre “Days of Heaven” (Cinzas no paraíso/Dias do paraíso, de 1978), e “The Thin Red Line” (Além da linha vermelha/A barreira invisível, de 1998). A realização de “The Tree of Life”, para não fugir à regra, estourou as previsões e o filme demorou 1 ano a mais para ser concluído do que o previsto (Malick cancelou a estréia na véspera, em maio de 2010, para decidir re-editar o filme). A obsessão de Malick com a perfeição pode encontrar paralelo não apenas em Stanley Kubrick (também famoso por peripécias análogas), mas em seu próprio filme. Conversando com seu filho, o personagem de Brad Pitt conta a determinada altura: “Toscanini gravou a mesma peça 46 vezes. Sabe o que ele disse quando terminou? ‘poderia ser melhor’.”. Certamente é o que disse Malick, para si mesmo, mesmo com a Palma de Ouro em suas mãos: “Poderia ser melhor”.

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Sobre Márcio Carlomagno

Mestrando em Ciência Política. Formado em Comunicação Social e em Gestão Pública. Um curioso e um palpiteiro sobre a sociedade, a política, as artes, e de tudo um pouco.
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Uma resposta para Malick, Deus e a “Árvore da Vida”

  1. Joana Ziller disse:

    Márcio, sou professora da UFOP, no Brasil, e estou fazendo a curadoria de uma mostra de vídeos para o próximo Festival de Inverno. Queria falar com vc sobre um vídeo postado em seu canal do YouTube. Podemos conversar? Meu e-mail é joana.ziller, no gmail.
    Abs!

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