Tradições portuguesas

Há muitas tradições em Portugal. Sobretudo na Universidade, ainda se preservam tradições que remontam a muitos e muitos séculos. Portugal é, provavelmente, o país europeu em que mais se preservam as tradições acadêmicas, já não mais adotadas por outros países. Nessa semana ocorreu a Semana de Queima das Fitas. Esta é mais uma das tradições e irei chegar nela, mas antes, há um caminho de tradições acadêmicas a percorrer.

Quando se chega à, no meu caso, Universidade do Porto (o mesmo vale para qualquer outra universidade em Portugal), logo se cruza com pessoas pelos corredores trajando roupas formais, sobretudos e capas (!). Esta é a primeira imagem e o primeiro contato que se têm com as tradições, que você ainda está para descobrir. Pela primeira vez pensei que fosse algum evento especial, uma formatura, provavelmente, mas aquilo continua nos dias e semanas seguintes.

O chamado traje acadêmico é uma roupa formal composta, para os homens, por calça, camisa branca, gravata, colete, batina (uma espécie de sobretudo) e capa. Sim, capa, tal qual em filmes de mágicos. Para as mulheres, a variação é trocar calça por saia abaixo dos joelhos. Com exceção da camisa branca, o traje é todo em preto, resquício do negro das batinas eclesiásticas. O uso do traje acadêmico começou na Universidade de Coimbra, no século XVI, e servia para separar a classe universitária (de pensadores) dos “outros”, e perdura até hoje. O traje acadêmico é uma espécie de uniforme escolar das universidades portuguesas. Não apenas “uma espécie”, mas literalmente o uniforme oficial da Universidade (não obrigatório, evidentemente). Embora “uniforme não obrigatório”, há muita gente que faz esse uso dele, e o usa diariamente. Pessoalmente, acho lindos os trajes acadêmicos e desejo ter um, andar com um por aí.

O traje acadêmico (retirei uma imagem da internet para não fazer uso indevido de nenhuma fotografia que tirei de outrem)

Mas o traje acadêmico é só um dos elementos que faz parte de algo maior, mais global. Chama-se Praxe. E o que é a praxe? É, por assim dizer, um ritual de iniciação aos calouros na universidade. Ora, alguém vai dizer, isso existe no Brasil, é o trote. Não, não é. É algo muito mais profundo. Enquanto no Brasil os “trotes” duram apenas uma semana, em Portugal a praxe dura um ano! Sim, todo o primeiro ano de “caloiro”! Eu, que detesto o discurso “politicamente correto” que o Brasil (e a minha universidade, UFPR) tem adotado nos últimos anos para coibir os trotes, me encantei com isso. Fico imaginando como seria a reação dessa gente politicamente correta ao saber de certas coisas que ocorrem na praxe e seu tempo de duração.

O que ocorre na praxe, creio, não é muito diferente dos trotes brasileiros, com a diferença da duração. Aqui, a praxe é uma tradição respeitada. Ela é, inclusive, realizada dentro dos campus da Universidade. Há sempre os que não gostam, que protestam, que querem acabar com ela. Movimento crescente, inclusive, que deve ser respeitado. Mas, assim como no trote brasileiro, participar da praxe é uma escolha pessoal – sempre é possível não fazê-lo. “Nunca foi meu sonho de criança andar de quatro”, disse-me uma amiga, ao dizer por que não participava da praxe. Um episódio que marcou minha memória foi, logo no primeiro mês que estava em Portugal, numa noite em Coimbra, em frente a uma “disco” (discoteca), uma “doutora” (como são intitulados os veteranos) chegou em sua caloira. A caloira, por ordem da veterana, ajoelhou-se perante ela, depois ficou de quatro, e cantou alguma canção que já não recordo. Isso em frente a dezenas de pessoas, no meio da calçada, na diversão da noite (não em uma prática de “trote”). Ou seja, a praxe é perene, não tem hora, ela ocorre a todo o tempo. Durante um ano!

A praxe se destina a iniciar os caloiros no meio, lhes ensinar valores, respeito, e com o tempo cria-se um sentimento de unidade no grupo. A partir do momento que deixam de ser caloiros, fazem parte de um seleto grupo.

Ah, as vestimentas. Apenas os “doutores” (veteranos) podem usar o traje acadêmico. É assim que se diferenciam dos caloiros e demonstram seu poder e superioridade. E, embora seja o traje oficial da Universidade, o uso corrente que se dá ao traje é que somente pode usá-lo quem é da praxe.

E finalmente chegamos à Queima das Fitas. Este é O evento acadêmico do ano. O mais aguardado de todos. Tradicionalmente, é o rito de passagem dos finalistas dos cursos, como uma espécie de formatura. Mas esse evento é aberto a todos. O nome da festa é por que os finalistas (formandos) usam fitas em suas pastas, como um símbolo (hoje é um símbolo, no passado as fitas eram usadas para amarrar/fechar as pastas, uma vez que não existiam fechos). No fim do curso, eles queimam as fitas, pois já não precisam delas. Bom, hoje é muito mais simbólico. No passado, queimavam as fitas e rasgavam o traje acadêmico. Hoje, não queimam nem rasgam nada, mas o símbolo ainda é preservado. Na prática contemporânea, o que ocorre é uma festa de uma semana (feriado escolar), regada a música e bebida. Mas o símbolo permanece. Nota: do traje que era rasgado, apenas a capa se guardava, para o resto da vida. Esta, nunca pode ser lavada, pois contém nela a “energia” de suas experiências.

Também é na Semana de Queima das Fitas que os caloiros deixam de ser caloiros. É realizado um cortejo, em que, sob a música tocada pela tuna, os caloiros vestem pela primeira vez suas capas de veteranos. A partir daí, podem andar trajados. É um belo, belo ritual de passagem. São belas tradições, que ainda são mantidas em Portugal.

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Sobre Márcio Carlomagno

Mestrando em Ciência Política. Formado em Comunicação Social e em Gestão Pública. Um curioso e um palpiteiro sobre a sociedade, a política, as artes, e de tudo um pouco.
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