Um fim de semana em Santiago de Compostela

SANTIAGO DE COMPOSTELA – Quando o comboio está a chegar em Santiago de Compostela, aproximando-se da cidade, ainda fora dela, entra em mais um túnel, como os muitos que cruzou no caminho até ali. Ao sair, numa curva, já está na cidade e os olhos dos passageiros avistam os prédios e ruas. A primeira sensação que se têm, para quem imaginava uma cidade antiga, muito antiga, é um estranhamento e decepção com tanta modernidade. Prédios altos e novos, como você não via há muito tempo, já que não existem (desse modo) em Porto. Saindo da estação de trens, depara-se com ruas de muitas vias, andaimes de reformas, shopping e uma modernidade que em nada diz que aquela cidade é aquela cidade – poderia ser Curitiba, São Paulo, Madri, Lisboa, ou qualquer outra do mundo, não identificável.

Você segue os conselhos angariados na rua e anda, anda, anda por aí. Chega à Zona Velha, e finalmente encontra a ruelas e velharias que buscava. É o antigo que lhe seduz, agrada mais aos olhos.  Sua tia sempre foi fascinada por Santiago de Compostela. Você não sabe qual a reação dela, mas deve ter adorado saber que mora a apenas 200 quilômetros desta cidade, que agora está visitando. Você compra muitos souvernirs. Você adora isso e essa é sua perdição – uma cruz vermelha de Santiago, em madeira, simples, como é própria da fé autêntica (Jesus era um homem simples, carpinteiro); a réplica (em pequena escala – 30 centímetros) da espada de Carlomagno – isto ainda o fará pensar muito na noite e adiante escrever a respeito –, uma fada, em metal, dita da sorte, nua e muito sensual, entre outras coisas mais. Gasta demais, muito demais. Pensa que terá problemas para carregar tanta coisa de volta.

Já está cansado, a caminho de andar até o hostel indicado no posto de informação turística, quando se depara com uma hospedaria. “Santa Cruz”, indica a placa, em pleno coração da zona velha, ao lado de tudo. Entra para saber o preço. 15 euros, o mesmo do hostel, mas por quarto individual. Quarto velho, um tanto antigo. Resolve ficar e entrar o clima dos peregrinos que já passaram por este local. No quarto, há uma escrivaninha, na qual você escreve em seu notebook e fica a pensar quantos já não se sentaram nessa cadeira (estofada e até confortável) para escrever seus relatos de viagem. Tira um cochilo enquanto a câmera carrega – a fada guarda seu sono, colocada à sua cabeceira.

Se informa sobre o que há para se fazer na noite. Fica sabendo de um concerto gratuito na catedral principal da cidade, na qual você ainda não foi, em homenagem aos 800 anos que a Catedral completa, justamente hoje. Coincidência incrível, você não sabia sobre esse aniversário. Dia de festa. Vai ao conserto, conhece uma espanhola na fila com quem assiste a bela apresentação e que lhe dá dicas sobre o que fazer na noite.  A partir d’um momento do conserto a música lhe leva por muitos pensamentos. No folheto explicativo sobre a Catedral outra referência a Carlomagno. Você já havia visto no mapa da cidade, existe nela um “Parque de Carlomagno”. Você deveria saber melhor a história de sua família, mas não sabe. No entanto, já percebeu que alguma influência ele teve por aqui e agora cá está você de volta, mil anos depois. Terrível ser o filho d’alguém importante, deve ser. Carregar um nome destes, então… Por maior que seja, você nunca irá dominar mais da metade do mundo conhecido. Você queria ser grande, honrar seu nome. No entanto, o sentimento não é de lamento, mas de inspiração. Esta é a palavra, você sente-se inspirado a realizar sua obra, honrar seu nome. Inspiração. Muitos falaram sobre a magia existente em Santiago, e não apenas sua tia fã de Paulo Coelho. Mesmo amigos, você já ouviu relatos sobre o magnetismo desse lugar. Começa a acreditar. Começa a sentir. Sente que está diferente, que já não é o mesmo homem.

Você passa pelo seu quarto, que é ao lado da Catedral – você poderia morar num desses, realmente agradou-lhe –, apenas para deixar os papéis que pegou na catedral. Lá fora, vista da janela, muitas pessoas conversam e fazem barulho nas ruas. Há muitos restaurantes de mariscos e coisas do mar, deduz que é a especiaria do local – ainda vai comer algo por ali, antes de voltar. Há muitas ruelas. Exatamente aquele clima que você sempre viu nos filmes sobre a Europa, mas ainda não havia encontrado exatamente aquilo. Finalmente, encontrou o espírito europeu como retratado no cinema. Seus 15 minutos de relato de viagem no notebook acabaram. Salva o arquivo e vai sair. Ainda é meia-noite e a noite está começando. Amanhã as visitas turísticas, por padrão, e não se sabe mais o que vier. Não é possível prever o que encontrará, o que experimentará. Sai para ver. Ainda há muito pela frente nessa viagem.

00:09, de 10/04 –  Fim da primeira parte do relato


A mesa dobrável em madeira do elegante trem da RENFE espanhola se abre e forma a bancada para o notebook. São cinco da manhã da segunda-feira e estou no trem retornando à Portugal.

Santiago é uma cidade para dois. A noite, os cafés e bares, as ruas, o espírito da cidade. Lembrou-me demais a Viena cinematográfica de Before Sunrise (Antes do Amanhecer, no Brasil). Foi horrível. Haha.

Há duas possibilidades para esta cidade, um grande romance ou uma grande guerra. Se eu acreditasse em reencarnação ou vidas passadas, teria certeza que já guerreei aqui. O desenho das ruas da zona velha, os esquemas táticos, os muros e casas, os muitos pontos de emboscada possíveis, tudo combina para se afirmar que seria realmente lindo fazer uma guerra aqui. Seria um grande ponto de resistência para um exército e um grande desafio para outro, que quisesse entrar na cidade. Engraçado isso, não? Já estive n’algumas cidades com castelos projetados para guerra, mas que seriam fáceis de invadir. Aqui não há castelos de guerra, mas esta cidade sim foi projetada para isso. Já que estamos em tempos virtuais, seria um bom cenário para inspirar um mapa para countre-strite. Eu jogaria.

O trem finalmente se põe a andar. Vazio, opostamente a quando veio. A espada de Carlomagno vai ao meu lado.

Diante da Catedral, os peregrinos deitam-se no chão, no meio da praça, para observá-la. Alguém mais fresco poderia se enojar pensando nos germes que existem no chão (Haha). Já eram seis da tarde, mas ainda havia sol quente e forte, quando o fiz e ali permaneci por quase uma hora. Sentir o chão, a energia. O magnetismo, como diria um amigo. (Re)encontrar-se em Santiago.

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Sobre Márcio Carlomagno

Mestrando em Ciência Política. Formado em Comunicação Social e em Gestão Pública. Um curioso e um palpiteiro sobre a sociedade, a política, as artes, e de tudo um pouco.
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