A Chave

Aula de história: Após a Segunda Guerra Mundial o território de Israel foi criado artificialmente dentro do território palestino. Em 1948, após a 1ª guerra Israel-Árabe, Israel, vitorioso, realizou um expurgo de parte da população palestina da região, com batalhas casa a casa. Foi o inicio do problema dos refugiados palestinos que geram os conflitos que assolam a região contemporaneamente. Segundo relatos, há refugiados que até hoje guardam a chave das suas casas, de onde foram expulsos, na esperança de uma reparação.

Inspirado pela história, me ponho a escrever ficção. Esta não se atém à factualidade nem a noções precisas da realidade.

(Nota: este autor considera a nominação de personagens desnecessária em termos narrativos, tal como Saramago em “Ensaio sobre a Cegueira”, contudo, necessária para a estruturação e compreensão desta escrita, em particular. Assim, ao nominar seus personagens toma a liberdade poética de fazê-lo intercalando nomes luso-brasileiros, muçulmanos e outros. Estes não detêm qualquer significado e servem unicamente à identificação de personagens).

A Chave

Os pés da criança, calçados com sandálias com um delicado detalhe bordado,  pisavam vagarosamente e sem preocupação o chão de pedra e poeira na manhã cinzenta. Nos braços da menina uma sacola de papel contendo algumas compras de alimentos que levava para casa. A paz a sua volta logo deu lugar à agitação de pessoas que começavam a andar depressa pela rua. A menina também apressou seu passo, chegando depressa à sua casa. A mão agarrou a maçaneta e a girou. A porta de abriu e ela entrou em sua casa. O seu medo passara, ela estava em seu refúgio familiar, em seu lar. A sensação de paz, porém, cessou ao ver o pai descer as escadas apressado com malas na mão e os dois irmãos a correr de um lado a outro da casa. Sua mãe veio até ela e lhe abraçou forte. “Graças a Deus você está aqui, graças a Deus”, disse-lhe sua mãe. “Temos que sair, Joana, temos que sair”, disse seu pai à sua mãe. “Eles estão chegando, temos que ir”. A pequena Paulina não sabia direito quem eram eles que estavam chegando, mas percebeu logo que estava partindo, abandonando o refugio no qual se sentira em paz há pouco. “Peguem apenas o essencial”, disse um dos dois irmãos.

Saíram rápido de casa, carregando poucas coisas. Paulina foi a penúltima a sair, seguida de seu pai. Ele fechou a porta e a trancou com a chave. “Para que isso, essa hora?”, indagou sua mãe, aflita. “Eu não vou abrir a porta de minha casa para estas pessoas. Eles terão que arrombar, invadir. É o que são, invasores!”, respondeu o pai. “Pegue aqui, querida, guarde isso muito bem”, disse o pai a Paulina, enquanto colocava a pesada chave de bronze da porta de casa em suas pequenas mãos e as fechava, formando uma concha em torno da chave, como se um objeto precioso fosse. Já se ouviam tiros ao longe, junto ao marchar da tropa, e o carro do primo Mustaff parou em frente à família. Entraram e partiram para uma outra vida. Deixaram para trás uma casa vazia, construída, objeto a objeto, durante uma vida. No baú do quarto, fotos e retratos de família. No coração, levaram apenas a esperança de retornar logo.

As palavras de combate do primo Mustaff e o desejo de lutar por sua terra fizeram o pai de Paulina entrar no movimento de resistência e não retornar mais para casa. O que retornou, em seu lugar, foi um lamento pela trágica perda e uma promessa de seguir lutando. Os irmãos de Paulina também se perderiam e cairiam, alguns anos depois. “Cair, porém em pé. Com honra, batalhando pela justiça”, dizia um deles. Paulina e sua mãe foram levadas para longe daquele conflito e encontraram abrigo num país acolhedor. Porém, por mais acolhedora que possa ser uma casa visitada, nunca é seu verdadeiro lar. Paulina cresceu olhando, nas noites tristes, para aquela chave que havia guardado, conforme seu pai lhe dissera, e lembrando de seu lar, que já não tinha.

Joana se esforçou para criar sua filha de forma honrada e Paulina cresceu e se tornou uma boa pessoa. Com tudo na vida acostuma-se e Paulina acostumou-se a nova vida, mas sem jamais esquecer a antiga. O seu casamento foi alegre, assim como sua vida de casada. Triste fim teve seu esposo, morreu ainda jovem em um acidente. Tiveram apenas uma filha, que Paulina batizou com o nome de sua mãe, Joana, que falecera pouco antes dela dar a luz. Paulina criou Joana de certa forma da mesma maneira que sua mãe lhe criara, sozinha, mas ajudada pela grande família em torno de si, e com muita honra. Nunca conseguiu, porém, abandonar a lembrança de sua terra.

Na casa de Paulina e sua filha Joana a chave se tornou um objeto mítico, pelo qual Paulina ia desenvolvendo uma estranha relação. Colocada numa estante com portas de vidro, ocupava lugar de destaque, tal qual uma santa católica fosse. Joana cresceu ouvindo as histórias que Paulina lhe contava sobre a terra prometida, o lar de paz e bondade, a verdadeira terra delas, para a qual elas retornariam um dia. Joana cresceu vendo crescer junto, em sua mãe a amargura, conforme o tempo ia passando e as esperanças de retornar à terra natal diminuindo. Paulina e Joana mudavam-se bastante. Paulina não dizia nada, mas as duas sabiam o motivo. Paulina não queria fixar raízes em nenhum lugar, não queria criar laços. Queria retornar. O tempo passou e Paulina envelheceu.

Joana cresceu e saiu de casa. Outra geração, mundo mudado, agora a mulher trabalhava. Conquistou sua independência mas não esqueceu sua família, sua mãe. Retornou para casa e trouxe sua mãe para morar consigo. Depois, junto com seu esposo, homem honrado. Joana teve uma filha, Natália, e formavam todos uma família feliz.

Joana sempre ouviu as histórias de sua mãe, mas nunca quis saber muito daquela história. Nunca se apegou àquela chave. Aquela chave nunca lhe dissera nada. Joana não tinha nem a amargura de sua mãe, nem a revolta e a ânsia por guerra de seus tios e familiares. Era indiferente, simplesmente. Um dia indagou sua mãe do por que guardar a chave de uma casa que, região em guerra e bombardeada, já não existia mais. Paulina não deu muita atenção e respondeu apenas com um seco “símbolos”, e voltou a atenção novamente a sua neta, com quem conversava. Agora Paulina contava suas histórias para a neta Natalia, que, diferente de Joana, ouvia com muito interesse. Joana preocupava-se com isso, mas não fez nada para interferir na relação das duas. “o que for, será”, pensava, indiferente.

Natalia tinha 13 anos quando Paulina adoeceu e morreu. Da cama, em seu leito de morte, Paulina esticou o braço em direção à chave, em cima da mesa, pedindo por ela. Natalia pegou a chave e a colocou nas mãos frágeis e enrugadas de Paulina. Paulina puxou as mãos de Natalia para perto de si e colocou a chave em suas mãos, fechando-as em formato de concha, repetindo o gesto que um dia seu pai fizera consigo. “Essa casa é nossa”, lhe disse. “Nossa”, frisou, para logo em seguida deixar esta vida.

O tom grave de uma cerimônia oficial marcou o jantar entre Joana e Natália, mãe e filha, um dia após o enterro de Paulina. Natalia carregava consigo a chave desde então. Talvez mais como uma lembrança afetiva de sua avó do que como a repetição de sua obsessão, mas Joana inquietava-se com isso. Natalia era jovem mas esperta e percebia as coisas. Entendeu com o que sua mãe estava preocupada e colocou a chave em cima da mesa. “É sua”, disse Natalia a sua mãe, “Faça o que quiser com ela”. Joana respirou aliviada, “Não me importo com a chave, apenas não quero que você se torne sua avó”. As duas conversaram como mãe e filha, com sinceridade, tentando compreender muitas coisas sobre seu passado, que não viveram, mas que as afetava. Sentadas à mesa, frente a frente, a chave no meio, sobre a mesa, mediava e transpassava a conversa. Passaram a madrugada ali, sem chegar a muita conclusão, seja sobre seu passado, seu futuro, ou mais objetivamente o destino da chave. Até que Joana, então, pegou a chave de cima da mesa e a levou à lata de lixo, com desdém, sem necessitar de cerimônia para jogar fora aquele objeto, como se fosse qualquer outro. “O passado é o passado. E ele está enterrado. Enterrado sobre os escombros de uma antiga casa e sobre as alegrias que nos restam. Vamos esquecer isso.”, proferiu, encerrando a conversa. Deram-se boa noite e subiram as escadas para se deitar. O passado ficou ali, na lata de lixo.

Madrugada já adiantada, mas Natalia não conseguia dormir. Tinha sono, mas algo a incomodava. Sabia que não podia dormir, pois havia algo que devia ser feito. Sabia que não poderia fugir ao que sua consciência ditava ser o certo. Levantou-se e desceu as escadas novamente.

Joana despertou pela manhã e encontrou Natalia sentada na mesa da cozinha a sua espera. A chave saíra do lixo e agora estava novamente sobre a mesa. Percebeu que a conversa da noite anterior ainda não havia acabado. Sentou-se com sua filha. Natalia segurou as mãos de sua mãe, de forma firme e confiante, como se muito mais velha fosse, como uma pessoa muito sábia. “O nosso passado é o nosso passado, nossa história. E esta chave é um símbolo dele”, disse Natália a Joana. “É algo que não volta mais, mas do qual não podemos nos esquecer. Isso não pode nos fazer miseráveis, como fez a vovó tão triste, por tanto tempo, mas também não podemos jogá-lo no lixo, esquecê-lo”. Joana lhe indagou sobre o que fazer então “Deixar a chave no armário da sala, como um fantasma a observar a todos?”, questionou. Então Natália, jovem e sábia, lhe disse que já havia decidido o que fazer com aquele objeto. Já havia telefonado para o tio Haddad, que era pesquisador em um museu e ele viria naquela tarde buscar a chave. É para onde a chave iria, um museu. “Por que ela faz parte de nossa memória coletiva, não apenas da história desta família, mas da história de nosso povo. E isso não se joga no lixo”, disse Natalia. Joana alegrou-se de ter uma filha tão jovem e já tão sábia. Abraçou-a.

A chave deixou a posse da família e passou a ser de um povo. Joana e Natalia não têm mais a chave, mas não precisam dela para manter aquilo que o objeto significava para Paulina: esperança. Esperança, aquele mesmo sentimento de Paulina e sua família ao abandonar sua casa. Esperança, agora não mais por causa de uma casa física, coisas de um passado remoto, mas esperança de reconhecimento, reparação. Talvez esperança por uma terra, um lar. Esperança, sobretudo, como gostava de dizer o irmão de Paulina que matou e morreu lutando por isso, de justiça. Esperança. No coração de mãe e filha, na chave agora exibida entre centenas de outros objetos num museu, e na alma daquele povo.

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Sobre Márcio Carlomagno

Mestrando em Ciência Política. Formado em Comunicação Social e em Gestão Pública. Um curioso e um palpiteiro sobre a sociedade, a política, as artes, e de tudo um pouco.
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