Cinco minutos

No dia 23 de março de 2011 o primeiro-ministro português, José Sócrates, renunciou. Os fatos verídicos podem ser encontrados nos jornais (tais como Jornal de Notícias, Correio da Manhã, ou aqui), narrados de maneira mais ou menos verídica (como é peculiar à imprensa).

O fato e seu acompanhamento inspirou-me o tema para uma crônica, exercício ralo de pseudo-literatura. O que segue é ficção.


Cinco minutos – Márcio Carlomagno

Crônica

 

O quarto da casa surbubana, sem luxos nem escassez, logo se identifica como sendo de uma jovem mulher. Lençóis bem arrumados, uns quadros à parede, um puff vermelho em formato de coração sobre a cama são alguns dos objetos que se encontram entre a dona do quarto, deitada na cama. Com o notebook no colo, conversa com amigos através da internet enquanto ouve a televisão ligada. Sob um cômodo, à esquina em frente à cama, a televisão exibe a votação na Assembléia Nacional de uma importante medida econômica para conter uma crise financeira. Caso seja reprovada, o governo, parlamentarista, ficará insustentável e irá se dissolver. O primeiro-ministro renunciará, anuncia a repórter, em tom premonitório. A situação é dada como certa e o é. A dona do quarto ouve com atenção e interesse, apesar das atividades múltiplas. É a cidadã comum. Na televisão, a votação prossegue e seu resultado é dado como irremediável, quando a repórter anuncia que o primeiro-ministro deixou a Assembléia.

Às portas traseiras do Palácio da Assembléia um cerco de poucos seguranças consegue conduzir o primeiro-ministro da saída do prédio à entrada de seu carro. Os jornalistas e os curiosos foram driblados. O carro, de luxo mas não oficial, com vidros escuros que impedem a visão de seu interior, passa despercebido entre os cercos policiais na saída do prédio, com outro carro, semelhante e levando os seguranças, a segui-lo. No interior do carro principal, além do motorista, apenas o primeiro-ministro. Este é seu momento de solidão.

O trajeto que o carro irá percorrer da Assembléia Nacional ao Palácio do Presidente demora cerca de cinco minutos. Cinco longos minutos. O primeiro-ministro tira do bolso de seu paletó um envelope branco com uma folha em seu interior. Segura-o em seus mãos. É sua carta de renúncia, que irá entregar ao Chefe de Estado, oficializando assim sua saída da Chefia do Governo. Noite da véspera, passada em claro, redigiu-a ainda com esperanças de não a usar, mesmo que defrontado com o destino certo. Agora a tem em suas mãos, com o destino consolidado. Cinco minutos a percorrer, entre a derrota no parlamento e a saída do cargo que exerceu por seis anos. O que pensar, nesse momento?

Tantas coisas poderiam vir em sua mente, decisões políticas, os desafetos que criou, os erros que cometeu, os interesses que o derrubaram. Que decisões que, se tomadas diferentes, poderiam evitar esse fim? Nada disso passou por sua cabeça. Tampouco se jubilou com conquistas que tivera no exercício do cargo. A derrota não é o momento em que alguém se lembre das vitórias.

Olhou para a sua pasta ao lado, deitada sobre o banco à sua esquerda, sua companheira de viagem e de sempre. Está só, consigo mesmo e seus papéis, como estivera no exercício do poder. E poderia ser diferente? O poder é mesmo um exercício solitário, lamentou consigo. “Nascemos e morremos sozinhos”, lembrou de certa vez ter lido isso n’algum lugar, não sabia mais aonde. Esta é bem uma verdade, pensou. Não lhe era bem uma morte, mas o fim de uma etapa importante de sua vida. Ainda lhe restaria a família, talvez a vida partidária, talvez a iniciativa privada. Seguir os passos de outros anteriores a ele e que passaram pela mesma situação. Ganhar muito dinheiro fazendo não se sabe bem o quê para empresas privadas. Não era o fim de sua vida, mas o fim de algo a que dedicara bons anos de empenho, bons anos de sua vida.

O poder pelo poder em si, como um fim, ou o poder como um meio? Meio para quê? Teve o poder, mas não sabia ainda bem para quê. O ego do senhor primeiro-ministro não era coisa de se ignorar, mas também havia em si boas intenções. Mas em quem não as há, em algum nível que seja? Gostava do poder e lamentava perdê-lo. Perder os jantares e mulheres que desfrutou, no uso do poder. Mas ainda assim não era esse seu pensamento principal.

Olhou pela janela, olhar estático, fixo. As ruas passavam rapidamente à sua frente e parecia o passado a correr frente a seus olhos. Anos rápidos. O vidro fechado, intransponível, era também símbolo do que fora seu governo, com um vidro entre si e as ruas.

Incongruência máxima, socialista viveu longe das ruas. De esquerda, cortou benefícios. Traira o partido e seus ideais, o acusavam. Traição, incoerente ou pragmático? Comprou quem tinha que ser comprado. Entre esquerda e direita, não sabia mais onde sentar-se. Provavelmente na cadeira que fosse melhor e com mais luxo. Figurou maior que seu partido, seu ego se sobrepôs. Ele venceu e ele perdeu. Ele. Ele e seu ego. Pensava agora, só agora, no seu partido e seus rumos, desordenados. Talvez pudesse reassumir seu comando, criar seu rebanho. Um partido já transfigurado, mudado. Esqueceu-se do partido e voltou os pensamentos a si novamente.

O que pensa o Príncipe ao perder sua coroa? Para isso Maquiavel não lhe havia preparado, para isso não sabia o que esperar ou como reagir. Lembrou-se do conselho de uma velha, certa vez. Ela o agarrara pelo braço em uma cerimônia oficial, e, com o olhar de uma bruxa, lhe sussurrou com uma voz rouca e pausada que “the things fall, everything fall”.  Foi breve, o serviço secreto logo tratou de assegurar sua segurança e ele nunca mais a viu, mas o olhar daquela velha lhe ficou marcado. As coisas caem, tudo cai. Pensou sobre a natureza da própria política. Cai-se. Cedo ou tarde, cai-se. Não há como sair vitorioso desse jogo, como ele pensava ser possível.

Lembrou-se de Eça de Queiroz. “Não vale a pena correr com ânsia por coisa alguma nessa vida”, era a síntese que lhe havia ficado na mente do final d’Os Maias. Pediu ao motorista para ir mais devagar. “Não há pressa”, lhe disse. Talvez quisesse prolongar o momento de reflexão, talvez prorrogar o seu próprio fim.

Ao dar-lhe a instrução para desacelerar a velocidade, quis chamar o motorista pelo seu nome. Não conseguiu lembrar e então percebeu que de fato não sabia o nome do motorista que sempre o acompanhou em sua rotina. Foi então, nesse minuto final, que talvez percebeu o que fizera de errado. Fora distante de todos, não criara laços. Técnico, não humano. Não sabia o nome de seu motorista, assim como não sabia sobre seus eleitores. Não que não lhe interessasse, mas julgava saber o que fazer por eles. Não os ouvia. A dona do quarto rosa da casa suburbana que acompanhava o fim do primeiro-ministro pela televisão concordaria. “Nunca nos ouviu”, diria.

“Cinco minutos bastam!”, lembrou-se o primeiro-ministro de ouvir a frase exaltada, num outro contexto, bem diferente, ocasião em que todos se puseram às gargalhadas. “Cinco minutos às vezes bastam”, pensou consigo. Cinco minutos às vezes bastam para se refletir o que não foi feito em cinco anos. Cinco minutos. Se os tivesse tido antes. Agora já era tarde. Uma lágrima tentou ensaiar um começo no canto do olho direito do homem de ferro, mas este a impediu. O carro já manobrava para estacionar na garagem do Palácio Presidencial. Logo a porta do carro se abriria para ele, assim como as demais portas até o presidente. Sairia daquela sala não mais no cargo que ocupava agora e teria que aprender de volta a abrir suas próprias portas. As do carro e as da vida. Desacostumou-se. E perdeu.

De volta ao quarto da casa suburbana, a televisão exibe o anúncio oficial renúncia do primeiro-ministro do país. Governo dissolvido, eleições convocadas. Uma champagne estoura na sala, gente a brindar a mudança de ares. A real mudança, sabia o primeiro-ministro e a moça no quarto, estava longe de ocorrer. Mas a sensação da mudança era necessária, a ilusão de que algo está a mudar, a falsa sensação de participação. Mas o comodismo, no fim, vence. O partido talvez voltasse ao poder, talvez não. Mas as coisas continuariam, assim desse jeito, péssimas e de mal a pior, por que não há muito o que se esperar dessa gente, dizia a moça do quarto. Alguém há que pagar, para que tudo volte a estar como sempre era, tinha consciência o agora ex-primeiro-ministro.

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Sobre Márcio Carlomagno

Mestrando em Ciência Política. Formado em Comunicação Social e em Gestão Pública. Um curioso e um palpiteiro sobre a sociedade, a política, as artes, e de tudo um pouco.
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