Carta a André

Logo nos dias seguintes que cheguei a Portugal houve um fato curioso. Meus amigos comentavam e riam de um documento do word que havia num pen-drive que encontraram na rua. Tratava-se de uma carta redigida a um André, sem identificação do autor. Na ocasião, não cheguei a lê-la inteira, mas copiei ao meu notebook para fazê-lo depois. Achei-a dia desses. Embora meus amigos tenham visto motivo de riso, achei-a muito bela. Uma vez que está sem autor (e já que meu último post, publicado a já bastante tempo, já foi mesmo uma violação ética da privacidade alheia) resolvi compartilhar essa beleza com meus eventuais leitores. Eis a tão famosa carta a André, copiado e colado, tal e qual, sem alterações.

André

 

Ontem comprei um casaco muito giro numa loja no centro comercial.

é um casaco comprido, quente de malha preta e a vendedora garantiu que não ganharia borboto.

Achei o casaco impecável e o facto é que me assenta bem, moldando-se como uma segunda pele ao meu corpo.

Estou sentado numa esplanada, o dia está bonito, ainda que seja inverno. Há um sol que brilha num céu azul claro, mal se consegue ouvir os pássaros tal é o ruído dos carros, que correm num frenesi irritante.

Este dia está estranho!

Consigo senti-lo nos meus ossos. É como se estivesse num sonho, não parece real, mas consegue sentir-se.

Contemplo o maço de tabaco em cima da mesa, já passaram dois minutos desde que fumei o ultimo.

Penso se devo ou não fumar outro. Sei que não devo, mas quero. Agarro o maço, retiro um cigarro e ancendo-o com o meu isqueiro novo de prata. Era do meu avô e pergunto-me se ele se importaria que eu tivesse ficado com ele.

Penso que talvez não mo quisesse dar. Penso que talvez tenha vergonha de mim agora que morreu e é capaz de saber de tudo, incluindo da minha diferença quanto aos outros rapazes.

Penso nisso e rio do meu pensamento.

Rio para não chorar.

Certa vez li algures que basta apenas um sorriso para esconder um milhão de lágrimas. Talvez seja verdade.

Estou na praça da batalha, e o sol começa a pôr-se. Há miúdos a andar de skate na praça, velhinhos que estiveram toda a tarde nas suas conversas de reformados, preparando-se para dizer um até amanhã aos seus amigos de longa data, o eléctrico passa uma vez mais cheio de turistas, assustando os pombos, o frenesi dos carros aumenta, aproxima-se a hora de ponta, uma brisa fria acaricia-me a cara e ela fica gelada.

Levanto-me, e vou embora ali não se faz nada.

Sinto fome, mas não me apetece comer.

Sinto um incrível ímpeto de vaguear por aí, sem rumo.

Gostava de ser capaz de correr mais do que os outros.

Gostava de correr tão rapidamente que o meu corpo socumbisse ao cansaço e se incendia-se. Daí em diante, a minha alma tomaria conta de tudo e eu talvez podesse voar livremente no céu como os pássaros, como os pombos que eu vira na praça da Batalha.

Começo a fumar um novo cigarro.

Ultimamente tenho sentido umas coisas estranhas.

O meu estômago não anda a digerir bem as coisas que eu como. Talvez seja uma consequência do meu repentino abuso de tabaco.

Mas não me ralo muito com isso.

Recebo uma mensagem no telemóvel.

 

Nova mensagem de Carla:

Estamos na Ribeira. Anda ter connosco.

 

Carla

Dói-me a cabeça!

Não é uma dor forte, é uma coisinha mínima.

Uma coisa que me lembra os parasitas da vida: são quase imperceptíveis, mas estão lá.

Olho o rio Douro que corre pacificamente. Vejo barcos carregados de turistas a fazerem cruzeiros.

Um dia gostava de fazer um. Mas não pelo Douro. Uma coisa afastada, diferente do que quer que eu tenha visto.

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Sobre Márcio Carlomagno

Mestrando em Ciência Política. Formado em Comunicação Social e em Gestão Pública. Um curioso e um palpiteiro sobre a sociedade, a política, as artes, e de tudo um pouco.
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