Ah, a arte!

Relato de coisas já passadas, faz já  semanas, mas ainda assim interessantes.

No dia em que cheguei a Portugal, no metrô do aeroporto à minha morada, conheci uma muito simpática gaja (que viria a saber e usar, depois, é como se chama “moça” por essas bandas). Dulca, artista, trabalha com malabares, me convidou a ir a um espetáculo no dia seguinte, em que ela iria trabalhar no som. Segundo dia em Portugal, e já me entranhei pelas artes. Ah, as artes, essa coisa tão… artística!

O local do espetáculo foi o Hard Club, que é uma das principais casas de espetáculo do Porto. Construído numa estrutura metálica vermelha e moderna, contrasta com a antiguidade de tudo que o cerca. Contrasta positivamente, sem ofender nem ser ofendido pelo ambiente.

O interior da casa. É igualmente inovador. O teto se eleva, abrindo um gigantesco campo de visão – similar talvez à altura dos tetos de certas igrejas. No segundo andar, há um café, com, além dos tradicionais bancos e mesas, puffs para se sentar ao chão. Sentei-me num dos puffs, enquanto aguardava a hora da abertura para o show. Existem várias salas/ambientes, em que são realizados diversos tipos de espetáculo. É uma casa multifuncional.

O espetáculo em que fui, chamado “Sarau a pedais”, era em uma sala pequena, com cerca de 30 cadeiras não fixas (o ambiente também é usado para festas) ali colocadas para o público esperado. Foi algo pequeno. No espetáculo em si, um gajo, solo, trajado com uma roupa branca que me (propositalmente ou não) remeteu ao figurino de “Laranja Mecânica”, já adulto, passeia entre brinquedos e objetos de sua infância. Não há falas, apenas uma trilha sonora que transpassa os movimentos. Através do trabalho de expressão, corporal e facial, o personagem se encanta e relembra sua infância, à qual ainda se apega, como se não a quisesse abandonar. Num momento, livra do paletó e mergulha no universo infantil. Tira o pó dos velhos objetos, diverte-se a andar de bicicleta pelo palco. Uma encenação bonita. Pequena, alternativa, e bonita.

Duas semanas após isso, tive outra experiência. Passado na rua em frente a milhares de cartazes pregados nos muros (por sinal, lindíssima arte do cartaz. Parabéns a quem a fez!), impossível não saber (a quem olhasse aos cartazes a sua volta, claro) que seria encenado aqui no Porto a ópera Rigoletto, de Verdi. Sempre fui fã de óperas, e não pude deixar de ir. Uma ópera, em plena Europa? Melhor, só se fosse na Itália.

A história dessa ópera é de uma atualidade assustadora. Em resumo, Rigoletto é um bobo da corte, velho e aleijado. Sua única felicidade é sua bela filha. Um rico duque então seduz a moça e desvirgina. Ela se apaixona por ele. Após idas e vindas, Rigoletto quer vingar-se. Arma um plano para matar o rico, mas a moça, cega de amor, sacrifica-se em seu lugar, fazendo com que o pai a mate sem saber que dela de trata. O duque sai ileso e o Rigoletto com a vida devastada com a perda da filha. A moral? Os ricos fodem os pobres, os homens enganam as mulheres que, idiotas e ludibriadas, se sacrificam por amor.

A companhia que realizou a ópera é da Moldávia (sim, a Moldávia é um país e existe). O espetáculo foi bonito, mas se eu precisasse definir mais a fundo diria que foi burocrático. O que quero dizer com isso? Não foi ruim ou decepcionante, de forma alguma, foi belo, mas não substancialmente diferente, em construção, qualidade ou qualquer aspecto, de outras óperas que já vi em solo brasileiro. Foi dentro do esperado, ou estandartizado, digamos assim. Belíssimo, mas não encantador.

O que se tira disso? Às vezes um pequeno e alternativo espetçulo pode impressionar mais, pois pouco se espera, do que algo grande e muito alardeado, cuja expectativas são grandes. Ambos, enfim, são essa coisa tão bela e fascinante que chamamos: a arte.

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Sobre Márcio Carlomagno

Mestrando em Ciência Política. Formado em Comunicação Social e em Gestão Pública. Um curioso e um palpiteiro sobre a sociedade, a política, as artes, e de tudo um pouco.
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